nov 03 2014

Deslocando o paradigma da posse para locação

Como produtos e serviços tendem a se comoditizar pela ação da concorrência, diferenciação por adição de características e redução de preços são as estratégias mais amplamente utilizadas para reter clientes. Bean & Van Tyne chamam isso de “vórtice da comoditização”, uma forte corrente no mercado que faz com que concorrentes ofertem mais por menos. O vórtice é eficiente para comoditizar qualquer coisa que envolva, demandando mudanças em produtos e serviços com mais frequência. Quando todos fazem o mesmo e se igualam, o cliente não nota mais diferença entre as ofertas e um novo ciclo de ofertar mais por menos se inicia para gerar distinção. A somatória desses ciclos cria um cenário de luta pela sobrevivência.

Em segmentos comoditizados em que produtos e serviços não possuem diferenciação, repensar a experiência é mais valioso do que repensar produtos e serviços. Essa é uma forma de descomoditizar, pois somente oferecer mais por menos não se sustenta em longo prazo. Descomoditizar significa ir contra o vórtice que leva à entropia, entendendo que não há nada seguro na comoditização. Praticamente tudo pode ser descomoditizado, até mesmo o café foi descomoditizado pela Starbucks.

O segredo é fazer com que um produto seja parte de um serviço ou um serviço seja parte de outro serviço.

Daniel Gilbert, professor de psicologia da Universidade de Harvard e autor de “Stumbling on Happiness“, relata que adquirir experiências traz mais felicidade do que adquirir objetos. As pessoas se adaptam rapidamente às coisas, mas antecipam e recordam eventos. Cita o exemplo das quem buscam novos pisos para suas casas, mas assim que os encontram e assentam tornam-se rapidamente mais um chão despercebido debaixo de seus pés. A lembrança de vivenciar momentos agradáveis em uma viagem ou celebração, por outro lado, mantém um fluxo duradouro de satisfação por quase toda a vida. Se cada peça de piso é igual às demais, os momentos são distintos e se tornam parte da identidade da pessoa. O resultado é que 57% das pessoas relatam ser mais felizes quando adquirem experiências em comparação a 34% quando adquirem coisas.

Se no século 20 a motivação era possuir, no século 21 passa a ser utilizar deslocando o paradigma da posse para locação. Trata-se de uma forma poderosa de descomoditizar e estender o relacionamento com o cliente. O serviço de assinatura Kindle Unlimited permite acesso ilimitado pelo assinante à variedade de livros existentes no catálogo da Amazon – em vez de adquirir, as pessoas podem locar livros pagando uma taxa mensal de assinatura. Faz todo sentido transformar vendas em assinaturas em uma época de mudanças exponenciais em que tudo se torna rapidamente obsoleto requerendo mobilidade para evitar aprisionamento ao passado.

Usar em vez de possuir também favorece a utilização racional evitando a adição de capacidade excessiva que se torna ociosa. É o caso dos serviços de compartilhamento de veículos que permitem às pessoas usarem quando precisam sem a necessidade de possuir. Veículos próprios passam a maior parte do tempo parados, envelhecendo e depreciando em nome de uma suposta conveniência de estar à disposição a qualquer momento. Se um serviço de assinatura puder disponibilizá-los com essa mesma conveniência e em escala global o benefício se torna evidente. Então, não seria mais o caso de ter um veículo de alguma marca em algum lugar, mas poder utilizar um veículo de qualquer marca em qualquer lugar.

Isso tem o potencial de remodelar toda a economia.

© José Davi Furlan

Jose Davi Furlan

Jose Davi Furlan

Business Transformation Expert, Keynote Speaker and Author

03/11/2014

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out 31 2014

Quanto custa a qualidade?

Por Emanuel Edwan de Lima*

Digitalizar0057Alguns gestores acreditam ham que a qualidade custa muito caro e que, na maioria das vezes, os investimentos feitos em melhorias de processos, certificações, aquisição de ferramentas e outros não trazem o devido retorno.

Creio não haver dúvida de que quando produzimos com qualidade a empresa tem uma melhor atuação no mercado consumidor, aumenta a sua competitividade, trabalha com preços mais estáveis, consegue ganhar a confiança e a fidelidade de seus clientes. Mas, apesar de todos esses benefícios que a qualidade proporciona, existe o questionamento sobre os benefícios advindos dos investimentos voltados para ela, principalmente quando a questão é calcular o seu retorno, cujos ganhos não podem ser calculados monetariamente em curto prazo, ainda mais quando este retorno significa a sobrevivência da empresa em longo prazo.

As iniciativas em prol da qualidade em uma organização podem ser denominadas de custos da qualidade. Estes custos podem ser divididos em categorias, conforme a seguir:

Custos para a avaliação da qualidade

São os custos relacionados à inspeção ou demonstração da qualidade. Por exemplo: os custos para o estabelecimento de padrões para produtos e processos; os relacionados à analise de conformidade de peças e insumos; para o estabelecimento de processos de ensaio, inspeção e teste e para o próprio controle dos processos.

Custos de prevenção

São os destinados a evitar o aparecimento de problemas. Em algumas empresas são difíceis de serem justificados, pois segundo a cultura de apagar incêndios, é mais fácil calcular o quanto custa uma hora de produção parada do que a economia proporcionada pela manutenção feita e que evitaria que ela parasse. Dentre estes custos estão inclusos os de execução de experimentos de confiabilidade; os de estudos de capacidade de processos; de ensaios preventivos; de calibração de equipamentos de laboratórios; de manutenção de equipamentos; de treinamento e capacitação; de projetos de experimentos, entre outros.

Custos de Garantia da Qualidade

Caracterizam-se pelos destinados aos programas e meios em vistas a preservar a qualidade em todo o ciclo de vida do produto e em todos os aspectos da organização. Podem ser inclusos custos tais como: acompanhamento de produtos em campo; implantação e manutenção de sistemas de qualidade; análise de reação de clientes; desenvolvimento de estudos de mercado; monitoramento do mercado e dos concorrentes; auditorias nos processos e nos fornecedores; qualificações.

Custos com informações

O tratamento de informações representa um custo também em relação à qualidade. Nesta categoria podem ser contabilizados os gastos relativos à seleção, coleta e organização das informações; desenvolvimento de análises; aquisição e manutenção de sistemas (soft e hard) de informações gerenciais.

Custos da conformidade

São despesas destinadas a comprovar para os clientes ou para órgãos reguladores a conformidade dos produtos ou serviços com padrões e normas. São inclusos os custos com certificações, tanto voluntárias quanto compulsórias relativas ao produto, compatibilidade eletromagnética, atendimento à legislação ambiental, conformidade com padrões de desempenho energético e outros.

O leitor, ao ver esta categorização, pode pensar realmente que a qualidade custa muito caro, que temos muitas despesas. Porém, estes investimentos são destinados a evitar um outro tipo de custos: os da má qualidade.

Estes gastos são relativos à produção de defeitos, pois o cliente não paga por produtos defeituosos. Também estes custos estão relacionados às perdas, erros e falhas; paralisações e atrasos decorrentes de quebras, demoras e estoque em processo; perdas de eficiência e diminuição do rendimento; retrabalhos; reprocessamento e reinspeção de lotes; excesso de controles; custos de reposição de produtos; da busca pela origem dos problemas.

Estes custos são mais fáceis de serem medidos que os da qualidade. E existem empresas que até mesmo prevêem em seus orçamentos este tipo de despesas. Porém, o que não podemos esquecer em relação aos custos da má qualidade são aqueles relacionados ao longo prazo da organização, e que nem sempre damos atenção, tais como: o da imagem; para recuperar o cliente perdido; a perda da credibilidade e da reputação da empresa.

Podemos afirmar aos leitores que por mais que se invista em qualidade, ela ainda assim continuará sendo um preço muito baixo a pagar em relação ao impacto negativo que sua falta trará aos negócios.

* Mestre em Gestão Empresarial, Gestor da Qualidade do Inst. Genius.  Email de contato: edwan_lima@yahoo.com.br
fonte: O Gerente

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out 31 2014

O QUE É INOVAÇÃO?

Gestão e TI | 27/10/2014

O que é inovação?

 

Inovar é encontrar soluções para pequenos ou grandes problemas. Não significa necessariamente “inventar a roda” ou ter uma ideia que cinco milhões de dólares a cada semana.  Significa quebrar padrões. Encontrar novas maneiras de fazer algo que já é feito há muito tempo, sempre do mesmo jeito. É resolver problemas ou se antecipar a eles. É cuidar para que as organizações permaneçam competitivas, os negócios permaneçam vivos e o planeta mais sustentável.

 

A meu ver, estamos em um momento de transformação. Antes, inovação nas empresas era algo voltado para fora, para a criação de novos produtos ou serviços. Hoje é parte integrante das organizações e ganhou um novo significado. Inovar é um modo de operar, de pensar e de estar no mundo.

 

Claro que ainda há um longo caminho a percorrer. A primeira motivação ainda, em muitos casos, é ditada pela pressão do mercado. E não sou eu que estou dizendo isso. Segundo a ABDI, Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial, a decisão de inovar no segundo trimestre de 2013 esteve fortemente associada a três fatores: pressões adicionais de custo (68,2%), exigências dos clientes (66,1%) e busca por maior participação no mercado (60%).

 

Por onde começar?

 

Para criar uma cultura de inovação, o primeiro passo é identificar o que isso representa para a organização e que resultados são esperados.

 

A semente desse movimento deve nascer na alta direção, que deve apoiar mudanças, participar ativamente do processo e reconhecer adequadamente aqueles que promoverem atitudes inovadoras. Só assim, esse novo “modo de estar e operar das organizações” criará raízes.

 

Outra forma de propiciar o despertar dessa cultura é promover cursos, palestras e dinâmicas que prepararem, motivem e deem suporte aos colaboradores. A criação de comitês e campanhas de incentivo a ideias/projetos que possam gerar economias ou otimizar processos também são ótimas ferramentas.

 

Enfim, para que uma cultura de inovação de fato se consolide, é importante que haja tolerância a erros e margem de manobra frente aos riscos inerentes ao processo.  Se a cada tentativa o time for penalizado, todo o investimento na disseminação dessa cultura cai por terra. O risco calculado deve ser acompanhado e estimulado para que o processo não se interrompa.

 

Grandes rupturas requerem tentativas, erros, liberdade de tempo e espaço. A pergunta que deixo para você, independente da cadeira que ocupa atualmente, é: você está pronto?

 

“Inovação é fazermos melhor o que fazemos hoje, de forma que se torne obsoleto.” – Akio Morita | cofundador da Sony Corporation

 

Escrito por Sofia Esteves

Artigo publicado originalmente em: EXAME.com

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out 30 2014

Construindo o negócio de fora para dentro

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Quando alguém deseja adquirir móveis planejados precisa ir a uma loja especializada de sua preferência. Ao chegar, o designer de plantão elabora a proposta de solução com base nas medidas e expectativas relatadas agendando em seguida uma ida ao local de instalação para conferir o projeto. Embora pareça uma prática corrente aceitável, baseia-se na mentalidade do negócio construído de dentro para fora (inside-out). Significa, nesse caso, que o cliente deve realizar as medições, procurar o endereço da loja e dirigir-se até ela. Nenhuma dessas atividades lhe agrega valor, apenas adia o alcance de seu objetivo – idealmente gostaria de ter sua necessidade satisfeita instantaneamente. Para a organização, a jornada inicia quando o cliente entra na loja; para o cliente iniciou quando começou a pensar no assunto. Da mesma forma, em um serviço de atendimento, o cliente pode ver o início quando registra uma solicitação ao passo que a organização vê o atendimento iniciando quando um representante começa a trabalhar na solicitação.

No século 21, descobrir como os clientes definem pontos de início e fim, tempos de resposta aceitáveis e critérios de satisfação são elementos-chave para o sucesso. Quando o negócio é construído de fora para dentro (outside-in) com a perspectiva do cliente, o foco passa a ser no que realmente agrega valor, eliminando o que não importa e estabelecendo a experiência do cliente como prioridade. O escritor Lin Yutang dizia que “ao lado da nobre arte de fazer as coisas, há a nobre arte de deixar as coisas sem fazer; a sabedoria da vida consiste em eliminar o que não é essencial”.

Experiência do cliente é resultado de uma capacidade ampla, não de uma função localizada. Quando o foco deixa de ser produtos e serviços para ser experiência, Bean & Van Tyne sugerem adotar os seguintes princípios:

  • Manter compromisso da alta administração com a experiência de clientes
  • Estar em sintonia com o mercado
  • Manter conexão estreita com clientes
  • Desenhar processos com base na jornada do cliente
  • Envolver clientes no desenho da experiência
  • Fazer pelos clientes e não para os clientes
  • Tratar emoções na jornada do cliente
  • Inovar e propor novas ideias para direcionar a experiência do cliente
  • Incorporar novos canais na jornada do cliente
  • Medir valor na experiência do cliente
  • Revigorar continuamente a jornada do cliente

Em uma prática construída de fora para dentro cada interação com a organização necessita gerar valor para o cliente. Esse conceito aplicado ao caso dos móveis planejados leva à reestruturação da jornada iniciando com agendamento da visita de um designer no endereço do cliente sendo o projeto feito in-loco com o próprio designer realizando medições. Além de reduzir a margem de erro, a presença do especialista no local de instalação permite melhor entendimento das necessidades resultando em um projeto mais adequado e ajustado ao ambiente.

A perspectiva de fora para dentro é um dos princípios centrais da orientação a cliente ao estabelecer a experiência como ponto focal para o desenho e a implementação das capacidades de negócio. Nessa visão, cada elemento do negócio é avaliado se agrega valor ao cliente. Se não agregar, a única justificativa para que se mantenha é em cumprimento a requisitos regulatórios ou leis, pois do contrário deveria ser eliminado.

Muitas organizações levam tempo demasiado para se dar conta daquilo que ninguém mais quer – quando o foco se desloca de inside-out para outside-in fica claro o que deve ser mantido e aprimorado e o que perdeu sentido e ser eliminado. Levar um smartphone que deixou de funcionar a uma assistência técnica e receber a informação que o orçamento de reparo será informado em até cinco dias é um contrassenso na visão de clientes que não podem permanecer sem o aparelho nem por 30 minutos – nessa situação é melhor descartá-lo e adquirir outro. Qual seria, então, o objetivo de se manter assistências técnicas de reparo de smartphones se as pessoas não podem ficar sem seus aparelhos?

© José Davi Furlan

30/10/2014

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out 23 2014

Deixando a complexidade para trás

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As pessoas estão cada vez mais sobrecarregadas de complexidade desnecessária e buscam uma forma mais fluída e simplificada de viver. Estão com pouca paciência para lidar com processos de compra complicados, faltas de estoques, entregas demoradas. Até mesmo para ouvir músicas estão impacientes – de acordo com o provedor de serviços musicais Spotify, metade das canções é pulada em algum momento antes do seu fim natural.

Pela perspectiva da organização, produtos e serviços tendem a evoluir desnecessariamente para algo mais complexo com o tempo tornando-se piores. Quando alguém busca um produto ou serviço irá muitas vezes mencionar as características que ainda faltam gerando estímulo para que sejam introduzidas. Esse ciclo mantido de forma sucessiva irá resultar em produtos ou serviços complexos que não mais atenderão às necessidades originais, tornando-se mais caros para adquirir e manter, e com menor desempenho. Exemplo típico é o de controles remotos de TV com dezenas de funções quando a maioria das pessoas necessita apenas de duas ou três. Quanto mais escolhas, produtos, serviços e canais forem oferecidos, maiores serão os custos, o tempo de resposta e a complexidade. Se isso é desnecessário servirá apenas para tornar a vida de todos mais difícil. Para fornecer excelentes experiências a clientes tem de se remover obstáculos e deixar a complexidade para trás.

De acordo com Barry Schwartz em “The Paradox of Choice“, à medida que a quantidade de escolha cresce aumentam os aspectos negativos dessa diversidade. No ponto de saturação, a escolha passa a exigir mais esforço e acarretar consequências psicológicas mais severas, pois se torna cada vez mais difícil discernir qual é a melhor opção entre as ofertas disponíveis. As pessoas se tornam sobrecarregadas e, em vez de se sentirem no controle da situação, ficam incapazes de lidar com ela. Cada passo da experiência de consumo precisa oferecer opções proporcionalmente à habilidade e competência do cliente deixando clara a diferença entre elas, além de permitir aos clientes voltarem a trás e refazem o passo caso mudem de ideia. Escolher entre viajar de 1ª ou 2ª classe com clara diferença de preço e conforto torna a decisão do cliente simples com baixa possibilidade de arrependimento pela escolha feita; já optar por uma bola de sorvete entre 50 sabores disponíveis torna a escolha difícil e com alta possibilidade de arrependimento posterior. A quantidade de opções pode até mesmo ser grande, mas precisa ser bem estruturada para que o cliente mantenha foco em uma sequência de decisões pequenas e claras.

Tornar o engajamento do cliente com a organização, seus produtos e serviços um processo complexo pode ser uma estratégia válida quando se busca aumentar valor por meio da restrição de acesso. Valor é resultado da raridade, não da necessidade. A escassez ou a dificuldade de acesso eleva o valor tanto de itens tangíveis como intangíveis

Em várias situações, os clientes reconhecem que a organização está em melhores condições de tomar certas decisões e as delegam esse fardo para se concentrarem em objetivos mais importantes. Contudo, ainda predomina no meio organizacional a velha escola de pensamento de criar complexidade desnecessária que não se transforma em melhores produtos ou serviços, servindo apenas para reforçar a formulação de Victor Lebow dos anos 1950: “precisamos que as pessoas comam, bebam, vistam-se, desloquem-se, vivam por meio de um consumo cada vez mais complicado e, portanto, constantemente mais caro”.

© José Davi Furlan

23/10/2014

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